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VIOLÊNCIA NA GRANDE FORTALEZA
NOTICIA - CRIME CONTRA PESSOA
05/10/2009 -

 

Territórios da morte na RMF


Convivendo com o medo: nas ruas, becos e vielas do Conjunto São Miguel, em Messejana, a presença da Polícia e os constantes tiroteios já não assustam nem mesmo as crianças (Foto: Kiko Silva)

Em nove meses, 1.028 pessoas foram mortas na Grande Fortaleza. Em dez comunidades, os crimes de homicídio são rotina

Locais de crimes, "territórios da morte". Na Capital cearense e sua Região Metropolitana, pelos menos dez comunidades sofrem com a escalada da violência. Nesses bairros e distritos, tornaram-se comum cenas de assassinatos, tiroteios e pessoas feridas por balas perdidas.

O Diário do Nordeste mapeou, com exclusividade, os" territórios da morte", baseado em sua estatística própria acerca dos homicídios. De janeiro até o dia 30 de setembro, nada menos que 1.028 pessoas foram executadas na Grande Fortaleza. Nessa estatística, estão reunidos dados que tornam irrefutáveis os números dos assassinatos, tais como local, dia e hora do crime, identidade da vítima e a arma utilizada na execução.

O levantamento comprovou que, pela ordem, os bairros ou distritos com maiores índices de assassinatos, nos noves meses de 2009 (janeiro a setembro) são: Bom Jardim (com 34 assassinatos), Pajuçara, em Maracanaú (31), São Miguel (28), Conjunto Palmeiras (28), Messejana (22), Planalto Ayrton Senna, o antigo "Pantanal" do José Walter (19), Jangurussu (17), Praia do Futuro (10), Conjunto Rosalina (9) e Conjunto São Cristóvão (07). Grande parte desses assassinatos não foi ainda esclarecida pela Polícia Civil, por tratar-se de "acertos de contas" entre traficantes e usuários de drogas, além, de vingança.

Homicídios

"Ali é lugar de matar gente", dispara uma moradora do bairro Bom Jardim, apontando para o local onde mais uma pessoa foi assassinada no último fim de semana. A vítima era mais um jovem envolvido com drogas.

Em recentes entrevistas à Imprensa local, o secretário da Segurança Pública e Defesa Social, delegado federal aposentado, Roberto das Chagas Monteiro, demonstrou o sentimento de impotência das autoridades do setor em relação ao crescimento vertiginoso dos casos de assassinatos no Ceará, especialmente, na Grande Fortaleza.

"As execuções estão virando uma pandemia entre nós", declarou Monteiro no dia em que era inaugurado o Quartel do Batalhão de Policiamento Comunitário (o Ronda do Quarteirão), em Fortaleza.

Entre os "territórios da morte", o Bom Jardim se destaca não apenas por apresentar o maior número de casos de homicídios, mas também porque as autoridades responsáveis pela investigação dos delitos não conseguem chegar aos criminosos. Os inquéritos ali se acumulam, diante da falta de estrutura da delegacia - 32º DP. Faltam inspetores para realizar a apuração dos assassinatos.

No distrito da Pajuçara, em Maracanaú, os assassinatos estão ligados à vingança e pela disputa de comando no tráfico de drogas, situação que é semelhante à realidade de outras comunidades periféricas de Fortaleza, como o Conjunto Rosalina, o São Miguel (em Messejana) e o Conjunto Palmeiras.

Já no Jangurussu, uma característica peculiar domina os registros de assassinatos. A maioria dos crimes ali ocorre em forma de "desova", isto é, as vítimas são executadas em outro lugar e os corpos deixados pelos matadores naquela comunidade, muitas sem nenhuma identificação.

IMPUNIDADE
Dobram casos de homicídios no Município de Pacajus

Vinte e nove assassinatos em nove meses, numa escalada de violência que a população nunca tinha visto. Assim é o retrato do avanço da criminalidade em um Município da Região Metropolitana de Fortaleza que, até bem pouco tempo, sequer figurava no rol dos mais violentos do Estado. Trata-se de Pacajus, situado a apenas 49 quilômetros da Capital. No ano passado, foram 13 homicídios, número igual a 2007. Portanto, dobraram os casos de assassinatos naquele Município.

Ali, o tráfico de drogas acompanhou o desenvolvimento da cidade e acabou por gerar uma onda de crimes como assaltos, furtos, agressões e, o mais grave, os homicídios.

Impunes

"O que mais contribui para tantos crimes aqui é a impunidade. Os criminosos matam e sabem que não vai dar em nada. Estão se sentindo à vontade."

A declaração é do radialista Alex Montenegro, um dos mais atuantes daquela região do Estado e que, a exemplo da Editoria de Polícia do Diário do Nordeste, elabora uma estatística diária e detalhada dos assassinatos que ocorrem em Pacajus e municípios vizinhos.

Segundo ele, dos 29 casos de morte ocorridos este ano, em apenas um deles o acusado do crime está preso. "A Polícia Civil alega não ter condições necessárias para investigar. Por conta disso, os assassinos vão ficando na impunidade", completa.

Segundo o radialista, a chegada do programa de policiamento Ronda do Quarteirão à cidade de Pacajus fez diminuir crimes como assaltos e furtos. Mas, os homicídios avançam.

ZONAS DE PERIGO
Ruas viraram palco das execuções

A Rua Joaquim Felício, no bairro Messejana, é um desses locais onde os assassinatos já não chamam mais tanto a atenção dos moradores. Viraram rotina os assaltos, tiroteios e a execução de pessoas. Ali, quatro homicídios ocorreram este ano.

Na Praia do Futuro (zona leste), o cenário "campeão" dos homicídios é a Avenida Dioguinho, com três execuções em nove meses. No Vicente Pinzón, outras três pessoas também foram fuziladas numa só via pública, a Avenida Dolor Barreira. No Jangurussu, duas pessoas foram mortas, este ano, na Rua Ada Pimentel. No Planalto Ayrton Senna, a "rua da morte", como dizem os moradores, é a Gerôncio Bezerra.

Medo

"Aqui, a gente vê tudo, mas não diz nada. De que vai adiantar? E tem mais, quem disser alguma coisa pra Polícia, vai ter que se explicar pro matador... Todo mundo aqui tem medo".

O desabafo, em recente entrevista a um programa policial na TV, foi de uma senhora, moradora do Planalto Ayrton Senna, o antigo "Pantanal" do José Walter. Entrevistada sem mostrar o rosto, e com a voz distorcida, ela se referia aos constantes tiroteios e mortes no bairro.

Na rua em que ela mora, a "Gerôncio Bezerra", o jovem Antônio Flávio Félix Dias foi executado, a tiro, na noite do dia 10 de abril. Eram 22h05, segundo o registro da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), quando ocorreu o assassinato do rapaz.

As cenas de violência ali não iriam parar. No dia 31 de julho, precisamente à 1h05, Nagerson Lourenço Cardoso tornou-se a segunda pessoa assassinada na mesma rua. Onze dias depois, mais um crime na mesma via. Dessa vez o adolescente Isaías Leandro Silva Neto, 14, tombou morto durante um suposto conflito entre gangues do bairro.

Apesar de ter mudado de nome e crescido em número de habitantes e pontos comerciais, o bairro continua violento. Os primeiros moradores dali não esquecem a cena brutal que tornou o lugar conhecido na Imprensa local.

Aconteceu na madrugada do dia 20 de novembro de 1993, quando três adolescentes, com idades entre 12 e 16 anos, tombaram mortos, crivados de balas, na esquina das ruas Planaltina e Apucarana. Os mortos eram Veridiano Duarte da Silva, Carlos Antônio da Silva e André Gomes de Souza. Policiais foram identificados, depois, como autores da tripla execução. Acabaram condenados pela Justiça.

De lá para cá, já são quase 16 anos, mas pouca coisa mudou em relação à violência que assusta os moradores e torna o "Ayrton Senna" um dos territórios da criminalidade em Fortaleza.

Execuções

No Conjunto Palmeiras, situado dentro da região conhecida como Grande Messejana, já são 28 mortes desde o começo do ano. Entre as vítimas (e a primeira mulher do ano) figurou uma dona-de-casa, vítima de bala perdida durante um tiroteio.

Maria Elza Rodrigues Gomes foi assassinada, com um tiro no peito, às 20h57, do dia 24 de janeiro. Naquele mês também seria assassinado, logo no dia seguinte, Romário César Rodrigues. O crime aconteceu na Rua Canguru. Na noite de quinta-feira passada, mais um caso aconteceu ali, tendo como vítima um rapaz conhecido por Natanael.

As ruas Elza Leite Albuquerque, Caio Facó, Neném Arruda e Ozélia Pontes, no bairro São Miguel, em Messejana, são as "campeãs" no ranking da violência naquela comunidade. Juntas, as três já serviram de palco para oito dos 28 homicídios ocorridos naquela comunidade desde janeiro passado.

Na Pajuçara (Maracanaú), os assassinatos são mais comuns nas ruas José do Vale, Luiz Gonzaga dos Santos, Geraldo Bilac e Raul Teófilo.

FIQUE POR DENTRO
Banco de dados aponta o raio-X da criminalidade

Em recente reportagem, publicada no dia 28 de setembro, o Diário do Nordeste noticiou o milésimo caso de assassinato registrado na Capital cearense e sua Região Metropolitana. O número foi obtido graças ao acompanhamento diário que a Editoria de Polícia faz dos registros de mortes violentas, anotados nas delegacias de Polícia, hospitais de emergência, além dos dados fornecidos pela Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), através de seu site na internet; e, ainda, na entrada de corpos o necrotério da Coordenadoria de Medicina Legal (CML), da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce).

O levantamento estatístico tornou-se uma importante ferramenta para que o jornal possa montar, periodicamente, um raio-X da criminalidade na Grande Fortaleza. O sistema de banco de dados próprio já vem sendo utilizado por grandes veículos de comunicação do País.

Através dessa estatística - que geralmente difere das oficiais - é possível, por exemplo, descobrir quais os bairros mais atingidos pela violência armada, a faixa etária mais constante na relação das vítimas dos assassinatos; os locais de maior incidência criminal (com as ruas que se tornaram principais palcos das execuções sumárias) e qual o tipo de arma mais empregada pelos homicidas. A estatística tem permitido expor para a sociedade, através de diversas e constantes reportagens, como anda a violência na capital cearense.


FERNANDO RIBEIRO
EDITOR



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